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Albacri

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Abu Ubaide Abedalá Albacri
Nascimento
século XI

Morte
NacionalidadeAlandalus
ProgenitoresPai: Ize Adaulá
OcupaçãoGeógrafo e historiador

Abu Ubaide Abedalá ibne Abedalazize ibne Maomé ibne Aiube ibne Anre Albacri Alandalusi (em árabe: أبو عبيد عبد الله بن عبد العزيز بن محمد بن أيوب بن عمرو البكري الأندلسي; romaniz.: Abū ʿUbayd ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-ʿAzīz ibn Muḥammad ibn Ayyūb ibn ʿAmr al-Bakrī al-Andalusī; Alandalus, início do século XICórdova, outubro–novembro de 1094), mais conhecido como Abu Ubaide Albacri ou simplesmente Albacri, foi um geógrafo, filólogo, homem de letras e botânico andalusino. Pertencente a uma família aristocrática dos becrita, era filho de Ize Adaulá Abedalazize Albacri, governante do pequeno principado de Huelva e Saltes até sua anexação por Almutadide de Sevilha em 1051–1052. Albacri recebeu ampla formação no Alandalus, tendo entre seus mestres o historiador Ibne Haiane, e manteve relações com diferentes cortes dos reinos de taifas. Apesar da extensão geográfica de seus escritos, aparentemente nunca deixou a Península Ibérica, compondo suas descrições de outras regiões a partir de obras anteriores, documentos e informações transmitidas por viajantes e outros informantes.

Considerado, ao lado de Dreses, um dos principais geógrafos do Ocidente islâmico medieval, Albacri destacou-se sobretudo por duas obras. O Muʿjam mā istaʿjam, concluído em 1069–1070, é um repertório de topônimos da Península Arábica mencionados na poesia da Jailia, no Alcorão e na literatura de hádice, reunindo informações geográficas, históricas, genealógicas e linguísticas. Sua principal obra, o al-Masālik wa-l-mamālik, concluído em 1068, pertence à tradição islâmica dos livros de rotas e reinos e descreve cidades, povos, itinerários e regiões do mundo conhecido. Embora preservado apenas parcialmente, distingue-se particularmente pelas informações relativas ao Alandalus, Magrebe, Ifríquia e Sudão, combinando geografia com materiais de natureza política, social, econômica e etnográfica. Suas descrições constituem fontes importantes para a história do Ocidente islâmico, incluindo os idríssidas e as origens dos almorávidas.

A produção de Albacri estendeu-se ainda à filologia, literatura, religião e botânica. Escreveu comentários e correções às obras de Alcali, entre eles o Simṭ al-laʾālī fī sharḥ Amālī al-Qālī, trabalhos sobre poesia, língua e tradições árabes e o perdido Kitāb al-Nabāt, dedicado à botânica e utilizado por naturalistas posteriores como Ibne Albaitar. Sua amplitude de interesses levou Lévi-Provençal a caracterizá-lo como um mushārik, erudito versado em diversos campos do conhecimento. Albacri viveu durante as transformações que conduziram do período dos reinos de taifas à intervenção almorávida no Alandalus e morreu em Córdova em Xaual de 487 A.H. (outubro–novembro de 1094).

Albacri nasceu em data incerta, provavelmente no início do século XI, no Alandalus. Pertencia a uma família aristocrática dos becritas, estabelecida no sudoeste da Península Ibérica. Seu pai, Ize Adaulá Abedalazize Albacri, governou o pequeno principado de Huelva e Saltes, constituído em 403 A.H. (1012–1013), durante a desagregação do Califado de Córdova. Segundo a tradição seguida por Évariste Lévi-Provençal, Abedalazize foi o único soberano desse domínio ou sucedeu nele ao próprio pai, Abu Muçabe Maomé ibne Aiube. O principado situava-se na costa atlântica do sul da Península Ibérica, a oeste de Niebla, e permaneceu independente até 443 A.H. (1051–1052), quando a pressão exercida pelo governante abádida de Sevilha, Almutadide, obrigou Abedalazize a entregar-lhe seus territórios, que foram incorporados aos domínios sevilhanos. Depois da perda do principado, Albacri acompanhou o pai para Córdova, escolhida como nova residência sob a proteção, ao menos nominal, do governante Abu Alualide Maomé ibne Jauar, dos jauáridas. Outra tradição afirma que pai e filho se retiraram para a própria Sevilha, possibilidade que Lévi-Provençal considera plausível. Abedalazize morreu por volta de 456 A.H. (1064). Albacri recebeu uma formação ampla e tornou-se conhecido ainda relativamente jovem nos círculos eruditos andalusinos. Entre seus mestres esteve o historiador Ibne Haiane, além de outros estudiosos de renome. Manteve relações com diferentes cortes dos reinos de taifas, particularmente com os sumádidas de Almeria, e sua posição social e erudição facilitaram seu contato com os ambientes cortesãos e intelectuais do Alandalus.[1][2]

Apesar da extraordinária extensão geográfica de seus escritos, não há evidência de que Albacri tenha viajado ao Oriente islâmico ou às regiões do Norte da África que descreveu detalhadamente. Sua atividade intelectual parece ter-se desenvolvido inteiramente no Alandalus, e seus conhecimentos sobre territórios que não visitara foram obtidos através de obras anteriores, documentos e informações de viajantes e outros informantes. Sua formação e seus interesses eram excepcionalmente variados. Embora tenha alcançado maior reputação como geógrafo, dedicou-se também à filologia, literatura, teologia e botânica, além de cultivar a poesia. Lévi-Provençal caracteriza-o como um típico mushārik, isto é, um erudito versado em diversos campos do saber. As fontes preservaram inclusive alguns de seus versos báquicos, ao mesmo tempo que lhe atribuem uma refutação dirigida contra um bebedor inveterado. Foi também descrito como bibliófilo, cuidadoso com seus manuscritos, que conservava envoltos em tecidos finos.[3] Quando os almorávidas intervieram militarmente no Alandalus e começaram a depor sucessivamente os governantes dos reinos de taifas, Albacri já havia composto a maior parte de sua extensa produção e reunido grande quantidade de materiais para suas obras. Estabeleceu-se posteriormente em Córdova, que Iúçufe ibne Taxufine restaurou à condição de principal centro político do Alandalus sob o domínio almorávida. Ali morreu em Xaual de 487 A.H. (outubro–novembro de 1094), em idade avançada.[2] Adabi fornece alternativamente o ano de 496 A.H. (1102–1103), mas a data de 487 A.H. é a geralmente aceita. Adabi atribui-lhe ainda o título de dhu l-wizāratayn, "possuidor dos dois vizirados".[1]

A produção de Abu Ubaide Albacri abrangia geografia, filologia, literatura, religião e botânica, refletindo a amplitude de sua formação. Embora sua reputação posterior se deva sobretudo às obras geográficas, escreveu também numerosos trabalhos de língua e literatura. Entre estes estava o al-Tanbīh ʿalā awhām Abī ʿAlī fī Kitāb al-Nawādir, também referido como Kitāb al-Tanbīh ʿalā aghlāṭ Abī ʿAlī fī Amālīhi, no qual assinalou e corrigiu erros encontrados no al-Amālī de Alcali. A obra foi posteriormente publicada juntamente com o al-Amālī. Albacri dedicou ao mesmo autor um trabalho mais extenso, o Simṭ al-laʾālī fī sharḥ Amālī al-Qālī (سمط اللآلي في شرح أمالي القالي), comentário ao conjunto do al-Amālī no qual reuniu explicações, correções e materiais adicionais à obra de Alcali, posteriormente editado por ʿAbd al-ʿAzīz al-Maymanī e publicado no Cairo em 1936. Albacri escreveu ainda dois comentários sobre obras de Abu Ubaide Alcácime ibne Salame. O Ṣilat al-mafṣūl fī sharḥ abyāt al-Gharīb al-muṣannaf comentava os versos citados no al-Gharīb al-muṣannaf, enquanto o Faṣl al-maqāl fī sharḥ Kitāb al-Amthāl (فصل المقال في شرح كتاب الأمثال) era dedicado à coletânea de provérbios Kitāb al-Amthāl. Este último sobreviveu e foi publicado em edição preparada por Iḥsān ʿAbbās e ʿAbd al-Majīd ʿĀbidīn no Cairo em 1958.[4][5]

Entre outros escritos linguísticos e literários que lhe são atribuídos figuram al-Iḥṣāʾ li-ṭabaqāt al-shuʿarāʾ, sobre as classes de poetas, Ishtiqāq al-asmāʾ, Shifāʾ ʿalīl al-ʿArabiyya e al-Tadrīb wa-l-tahdhīb fī ḍurūb aḥwāl al-ḥurūb. Outra obra, aparentemente perdida, era o al-Muʾtalif wa-l-mukhtalif, dedicado aos nomes das tribos árabes. Ibne Bascual atribui-lhe também uma obra, cujo título não registra, acerca dos sinais da missão profética de Maomé. No campo da botânica, Albacri compôs o Kitāb al-Nabāt (كتاب النبات), obra atualmente perdida e conhecida por referências de autores posteriores. O trabalho pertencia à tradição andalusina de tratados de botânica descritiva organizados alfabeticamente e concentrava-se sobretudo nas plantas da Península Ibérica. Serviu de fonte para naturalistas posteriores, entre eles Ibne Abedune Alisbili, Algafiqui e Ibne Albaitar.[4][5]

Geografia

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A reputação de Albacri repousa sobretudo em duas grandes obras geográficas, o Muʿjam mā istaʿjam e o al-Masālik wa-l-mamālik. Concluído em 462 A.H. (1069–1070), o Muʿjam mā istaʿjam min asmāʾ al-bilād wa-l-mawāḍiʿ (معجم ما استعجم من أسماء البلاد والمواضع) é um repertório geográfico dedicado principalmente aos topônimos da Península Arábica mencionados na poesia da Jailia, no Alcorão e na literatura de hádice. Albacri procurou reunir informações históricas e geográficas sobre esses lugares e esclarecer formas de escrita e pronúncia que haviam se tornado objeto de divergência ou corrupção na transmissão. Após uma introdução sobre a geografia da antiga Arábia e a distribuição territorial das principais tribos árabes, os topônimos são apresentados em ordem alfabética. O Muʿjam possui especial importância para a interpretação da antiga poesia árabe e das tradições nas quais aparecem topônimos cuja identificação já apresentava dificuldades para os estudiosos medievais. Ao reunir materiais geográficos, históricos, genealógicos e literários, Albacri preservou numerosas informações relativas à ocupação tribal da Arábia. A obra chegou aos tempos modernos e foi publicada por Ferdinand Wüstenfeld em Gotinga entre 1876 e 1877, recebendo posteriormente outras edições.[4][2]

Sua obra geográfica mais importante, contudo, foi o al-Masālik wa-l-mamālik (المسالك والممالك), "Os caminhos e os reinos", concluído em 460 A.H. (1068). Concebido segundo a tradição dos livros de rotas e reinos da geografia islâmica, descrevia itinerários, cidades, regiões e povos, indicando distâncias entre localidades e etapas de viagem. Seu âmbito geográfico era amplo e abrangia diferentes partes do mundo conhecido pelos geógrafos muçulmanos, embora sejam particularmente importantes as seções dedicadas ao Alandalus, Magrebe, Ifríquia e Sudão. Albacri ultrapassou a simples elaboração de um roteiro geográfico e incorporou à obra grande quantidade de informações de natureza política, social, econômica e etnográfica. Essa combinação conferiu ao al-Masālik particular importância para o conhecimento do Ocidente islâmico medieval.[6] O al-Masālik wa-l-mamālik não sobreviveu integralmente, conservando-se extensos fragmentos de diferentes partes da obra. Seu volume introdutório tratava de geografia geral e de povos muçulmanos e não muçulmanos, enquanto outras partes descreviam diferentes regiões do mundo islâmico e de fora dele. As descrições de cidades distinguem-se frequentemente pela precisão, e o material toponímico referente ao Magrebe, à Ifríquia e ao Sudão é particularmente abundante. Seus relatos históricos constituem igualmente fontes importantes: Lévi-Provençal destaca, entre outros, os relatos sobre os idríssidas e as origens dos almorávidas, que considera fundamentais para o conhecimento dessas dinastias.[4][7]

Para compor as partes do al-Masālik wa-l-mamālik dedicadas a regiões que não conhecia pessoalmente, Albacri recorreu extensamente a obras anteriores, documentos e informações transmitidas por terceiros. Sua principal fonte para a geografia da Ifríquia e do Magrebe foi o al-Masālik wa-l-mamālik de Maomé ibne Iúçufe Aluarraque, autor que vivera durante longo período em Cairuão antes de se estabelecer em Córdova a convite de Aláqueme II. A obra de Aluarraque, atualmente perdida, tratava particularmente da Ifríquia e permitiu a Albacri incorporar informações remontando ao século X. Albacri menciona expressamente essa fonte diversas vezes e dela extraiu grande quantidade de material. Lévi-Provençal considera provável que tivesse também à disposição documentos dos arquivos cordoveses, entre eles materiais relativos aos berguatas.[6] Outra fonte importante foi uma obra geográfica de seu mestre Aludri, natural de Dalías e morto em Almeria em 478 A.H. (1085). Sua obra, intitulada Niẓām al-marjān, dedicava espaço considerável aos ʿajāʾib, relatos sobre maravilhas e fenômenos extraordinários, materiais que também aparecem em Albacri e que posteriormente seriam utilizados por Alcasvini. Lévi-Provençal menciona ainda como fonte o Majmūʿ al-muftaraq, de origem incerta e que poderia inclusive corresponder a outra obra do próprio Albacri, posteriormente utilizada por Ibne Idari e Almacari. Para suas informações sobre a Espanha cristã e outras regiões da Europa, Albacri preservou igualmente notícias atribuídas a Ibraim ibne Iacube Atartuxi, viajante judeu de Tortosa do século X, cuja obra não sobreviveu. É possível, contudo, que Albacri tenha conhecido esse material indiretamente através de Aludri.[8]

A data de composição do al-Masālik pode ser situada em 460 A.H. (1068). Entre os elementos utilizados para estabelecer essa cronologia está a ausência de qualquer referência à posterior intervenção dos almorávidas no Alandalus, iniciada cerca de dezoito anos depois com a Batalha de Zalaca.[8] A obra sobrevive apenas parcialmente. Do volume introdutório, dedicado à geografia geral e aos diferentes povos muçulmanos e não muçulmanos, conserva-se um manuscrito em Paris, embora grande parte de seu conteúdo permanecesse inédita à época do estudo de Lévi-Provençal. Alguns trechos relativos aos rus e aos eslavos foram publicados por Arist Kunik e Viktor Rosen em São Petersburgo em 1878. A seção dedicada ao Norte da África tornou-se conhecida através da edição e tradução francesa de William MacGuckin de Slane, publicadas inicialmente no século XIX, enquanto partes relativas ao Alandalus foram identificadas e editadas por Lévi-Provençal a partir, entre outros testemunhos, de um manuscrito conservado na Biblioteca da Universidade al Quaraouiyine, em Fez, que continha o mais extenso fragmento então conhecido da descrição da Península Ibérica. Materiais provenientes de Albacri foram também preservados no al-Rawḍ al-miʿṭār, de Alhimiari.[4] Diferentes partes preservadas do al-Masālik foram posteriormente objeto de edições e estudos independentes, e uma edição do texto conservado foi preparada por Adrian van Leeuwen e André Ferré e publicada em dois volumes em Túnis em 1992.[5]

Além de seu valor para a geografia histórica, o al-Masālik wa-l-mamālik constitui uma fonte para a história econômica e social do Ocidente islâmico dos séculos X e XI. A obra preserva informações sobre metrologia, custo de vida, relações comerciais, circulação de mercadorias e comércio de artigos de luxo, além de dados sobre populações, cidades e estruturas políticas. Lévi-Provençal destaca ainda o interesse linguístico do texto: ao lado de autores andalusinos de tratados de hisba e agricultura, Albacri encontra-se entre os escritores árabes do Alandalus cuja linguagem apresenta maior quantidade de hispanismos. Mesmo em seu estado fragmentário, o al-Masālik é considerado uma das principais obras da geografia histórica do mundo islâmico medieval, comparável, para o Ocidente islâmico, ao posterior Nuzhat al-mushtāq de Dreses.[8]

Referências

  1. 1 2 Lévi-Provençal 1986, p. 155.
  2. 1 2 3 Özdemir 1994, p. 247.
  3. Lévi-Provençal 1986, pp. 155–156.
  4. 1 2 3 4 5 Lévi-Provençal 1986, p. 156.
  5. 1 2 3 Özdemir 1994, p. 248.
  6. 1 2 Lévi-Provençal 1986, pp. 156–157.
  7. Özdemir 1994, pp. 247–248.
  8. 1 2 3 Lévi-Provençal 1986, p. 157.

Bibliografia

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  • Lévi-Provençal, E. (1986). «Abū ʿUbayd al-Bakrī». The Encyclopaedia of Islam. I: A–B 2 ed. Leida: E. J. Brill. p. 155-157 
  • Özdemir, Mehmet (1994). «Ebû Ubeyd el-Bekrî». Türkiye Diyanet Vakfı İslâm Ansiklopedisi [Enciclopédia Islâmica TDV]. 10. Istambul: Türkiye Diyanet Vakfı. pp. 247–248 

Leitura adicional

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Ligações externas

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